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MÉDICO - CUIDANDO DE TODOS, ESQUECENDO DE SI

  • Helena Brígido
  • 29 de jul. de 2019
  • 8 min de leitura

BRÍGIDO, Helena AZ.

Docente da Universidade Federal do Pará e Centro Universitário do Estado do Pará, Especialista em Doenças Infecciosas, Epidemiologia e Saúde Pública, Mestre em Medicina Tropical.


Publicado na Revista da Sociedade Médico-Cirúrgica do Pará


RESUMO

As atividades rotineiras do médico acarretam transtornos físicos e mentais ao profissional sem que este se considere como paciente. O estudo descreve sobre o dia a dia do profissional da medicina, as fugas inconscientes e as possíveis consequências. Observa-se que o médico tem problemas de saúde como qualquer pessoa, mas menospreza e não se cuida. Verifica-se a importância do reconhecimento dos problemas de saúde de um profissional que se desdobra para manter a saúde de outrem, mas que não dá importância para si próprio.

Palavras-chave: Autocuidado; Saúde; Médico


1 INTRODUÇÃO


A Medicina foi organizada de forma que ocorra atendimento integral ao paciente significando acolhimento, avaliação com minuciosa história e exame físico, exames adequados quando necessários e medicação pertinente ao caso, além de cuidados de prevenção. Tudo com planejamento e muito estudo. Nada é mais importante para a formação médica do que o bem-estar do paciente.


Após a cerimônia de recebimento da carteira do Conselho de classe, a expectativa de emprego é satisfeita quase imediatamente e aí, tem-se o primeiro de tantos pacientes. A tensão modifica com a maturidade técnica, porém independentemente, o objetivo é o mesmo: minimizar a dor e, preferencialmente curar o doente.


Mesmo no desgaste físico e mental, o profissional da medicina nem percebe que os anos passam e não há final de semana totalmente sem trabalho ou sem a preocupação com as tarefas profissionais, deixando, portanto, de usufruir do convívio familiar, do crescimento e acompanhamento dos filhos. Ao adoecer, dá valor ao tempo, mas ao melhorar, já retorna às inúmeras atividades desgastantes.


Os profissionais de saúde estão mais propensos a ter determinadas doenças; as infecciosas pela frequência de contato com doentes; as neoplasias pela raridade de periodicidade de exames preventivos; diabetes pela resposta adaptativa ao stress e, para quem já é diabético, pela dificuldade de controle glicêmico devido aos turnos desgastantes de trabalho; hipertensão arterial, pelo stress e também dificuldade de controle; além de transtornos mentais e comportamentais, doenças circulatórias e gastrintestinais (CFM, 2007).


Não há temor do médico com exposição a Raios X, ala de emergência, manipulação de pacientes com trauma aberto. Ainda que existam os cuidados de biossegurança, os riscos existem. Trabalha-se horas seguidas, com alimentação sem mastigação correta, deixa-se para escovar os dentes depois e aí, adormece de cansaço; ida ao banheiro em plantão? Demora-se a ir e vai-se correndo para voltar logo.


Um estudo realizado em Salvador, Bahia entre 384 médicos relatou as queixas clínicas mais frequentes entre médicos: cansaço mental (54,1%), dor nas costas (43,3%), sonolência (37,5%), dor nas pernas (37,2%), dor nos braços (31,3%), esquecimento (30,8%), nervosismo (28,4%) e insônia (25,1%). Os principais diagnósticos no estudo foram: varizes em membros inferiores (89,4%), lombalgia (54,2%), hipertensão arterial (24%), infecção urinária (21,1%) e sinusite (15,2%), segundo Nascimento Sobrinho et al (2006).


A questão é que, ainda que o corpo do médico dê sinais de alerta de doença, não há procura por atendimento, mesmo que o quadro clínico apareça no próprio serviço de saúde. A tendência é achar que não tem importância, que é temporário e que logo estará assintomático. E o corpo vai sendo consumido ao longo do tempo sem o devido cuidado.


2 DESENVOLVIMENTO


Há um antagonismo da população com relação à classe médica. Por uns são objeto de admiração, por outros; “são cobrados a nunca errar e sempre fazer viver mais ou não deixar morrer ninguém, como se estivesse ao alcance deles o próprio dom da vida” (CFM, 2007, p 12).


A profissão médica tem uma sobrecarga enorme de trabalho e responsabilidades e, para piorar a situação, as atividades são exercidas em condições desgastantes no local de atuação. O conjunto gera conflitos entre os componentes da equipe de trabalho e com os pacientes. Ocorre sempre a frustração quando não é possível salvar vidas, seja pela ausência de estrutura no serviço e/ou pela gravidade do caso de pacientes.


A falta de atitude de busca de diagnóstico no próprio profissional pode estar relacionada a um sentimento de vergonha por não ter realizado exames preventivos em tempo e/ou de não dar a percepção dos sinais e sintomas relacionados a determinada doença. Se estiver relacionado à saúde mental, o profissional fica ainda mais envergonhado diante dos outros colegas, família e sociedade em geral. Provavelmente, pensa ser onipotente pelo grande conhecimento técnico específico e de não admitir que tem as mesmas vulnerabilidades que qualquer outro cidadão.


Um médico, com hipertensão arterial de longa data, chegou ao plantão e, após algumas horas, sentiu um mal estar sem que valorizasse os sinais e sem alarde à equipe de trabalho. Na divisão de horários da madrugada, o médico atendeu normal, a dor piorou sendo necessário chamar os outros plantonistas que tomaram as providências necessárias urgentemente. O quadro era grave e o levou ao óbito. Todos os outros colegas médicos ficaram perplexos, pois não tiveram conhecimento de nada anormal.


O que faz o médico pensar que o próprio organismo não é frágil como de todos os pacientes que cuida? O que faz achar que não é vulnerável, mortal?


As condições de trabalho, variedade de tarefas, constância de estudos, exigência de gestores e pacientes, afetam a saúde desse trabalhador causando ansiedade e depressão. Ocorre um aumento da incidência de problemas posturais, distúrbios do sistema digestivo, hábitos de fumar e beber, segundo Cox, Griffiths & Rial-González (2000).


Na incerteza de manter-se no trabalho em determinadas locais que não remuneram adequadamente, o médico apresenta tensão que é traduzida no corpo.


2.1 A Síndrome de Burnout


O médico tem propensão a desenvolver a síndrome de Burnout, um distúrbio psíquico relacionado a profissões interligadas à assistência. A diferença fundamental entre o stress ocupacional e a Síndrome de Burnout é que nesta há um destaque exacerbado à relação interpessoal no trabalho. A síndrome traz consequências negativas para o profissional e é externada com insônia, alterações cardiorrespiratórias, gastrintestinais levando à exaustão emocional. O próprio Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil (2001) definiram que é uma ausência de saúde, com Código Internacional de Doença (CID) - Z73.0 - Sensação de Estar Acabado, Síndrome de Burn-out ou Síndrome do Esgotamento Profissional.


Para que seja dado do diagnóstico é preciso observar os sinais e sintomas, seja pelo médico, seja pelos colegas de equipe ou diretores de serviços de saúde, nos níveis leves: queixas vagas, cansaço, dificuldade para levantar-se pela manhã; moderados: cinismo, isolamento, desconfiança e negativismo; graves: lentificação do pensamento, automedicação com psicofármacos, absenteísmo, abuso de álcool e drogas; e Extremo: isolamento acentuado, colapso, quadros psiquiátricos, suicídios ((THOMAÉ et al., 2006).


Quanto aos sinais e sintomas, Thomaé et al (2006) define a Síndrome de Burnout com:

- Sinais e sintomas físicos: cefaleias sensoriais, fadiga, esgotamento, insônia, transtornos gastrointestinais, dor generalizada, mal estar indefinido;

- Sinais e sintomas psíquicos: falta de entusiasmo e interesse, dificuldade de concentração, permanente estado de alerta, irritabilidade, impaciência, depressão, negativismo, frustação, desesperança, desassossego.

- Sintomas laborais: ausência ao trabalho, não compartilham nem delegam trabalho.


Os primeiros sentimentos negativos são direcionados aos desencadeantes do processo, ou seja, clientes e colegas de trabalho, posteriormente atingem amigos e familiares e, por último, o próprio profissional.


2.2 Automedicação do médico


Se dentro da especialidade o médico pratica automedicação, externamente ao conhecimento do diagnóstico também há uso de analgésicos, antinflamatórios e até mesmo algo direcionado à doença, mas sem que tenha sido avaliado pelo especialista da área.


É comum encontrar médicos que utilizam antidepressivos, benzodiazepínicos e outras drogas pela facilidade de acesso às receitas controladas ou ao próprio medicamento de uso restrito hospitalar, sem a avaliação necessária ao caso. O uso pode levar à dependência química, além de efeitos nocivos à saúde.


No receio de serem descobertos pelos próprios colegas, médicos prescrevem na receita como se fosse para parentes, mas o medicamento é para si. E, em determinado momento, já não conseguem manter-se sem determinado medicamento.


2.3 Alimentação


Nas idas e vindas de plantões, consultórios, palestras etc não há tempo de ter uma alimentação saudável. O desejo de sentar na mesa, mastigar com calma, ingerir os sucos, saborear cada quesito do prato, não tem tempo. Até mesmo o café da manhã. Café? Geralmente, pega-se um pedaço de pão e vai comendo no elevador enquanto desce nos andares até a garagem.


Após algumas horas, começa a doer o estômago, mas não dá tempo de parar, porque estão agendados vários pacientes. E no outro dia, mais trabalho. Uma jornada semanal desgastante gera declínio no desempenho de testes de raciocínio e impacto no funcionamento cognitivo (VIRTANEN et al., 2009), além de modificação no peso, ausência de atividade física saudável. E o tempo passa.


2.4 Exames Periódicos


A probabilidade de sentimento de autossuficiência do médico é algo preocupante. Como se não precisasse de cuidados, não tem atitude de marcar os exames e realizá-los assim como orienta aos pacientes. Médico é humano. Fica doente também.


O médico coloca-se na agenda para ir ao dentista. E não vai. Pede pra alguém marcar. Não vai de novo.


Faz-se campanhas contra o câncer de mama, intestino, próstata e o médico, no geral, não segue as orientações de prevenção. Não dá importância. Não se cuida.


3 CONCLUSÃO


A rotina profissional do médico não condiz com a realização plena de satisfação de vida necessitando que seja percebida antes de tudo, para que ocorram mudanças profundas na reorganização do trabalho.


É fundamental que se realizem encontros dos colegas e equipe fora do local de trabalho e que, neste, sejam oferecidos ambientes alternativos de relaxamento de terapia ocupacional, formação de atividade interdisciplinar etc.


Quanto à família e amigos extratrabalho, é preciso participar de eventos festivos e recreativos, praticar exercícios, ir à escola dos filhos ou netos e participar da mesa de alimentação junto com todos da casa.


Acima de tudo, o médico deve cuidar do corpo e da mente realizando exames periódicos e aceitar ser cuidado por outro médico ao apresentar sinais e sintomas de doença. O sofrimento interno precisa ser percebido para encarar os fatos. É preciso definir limites pessoais evitando envolvimento psicológico. Urge que se encontre mecanismos para controle das atividades que levam a uma perda máxima de energia. Apesar da evidência, a prevenção e gestão de riscos psicossociais não tem sido priorizadas na formulação de políticas de saúde. Os riscos são cada vez mais reconhecidos como grandes preocupações de saúde pública, porém há falta de conscientização diante das evidências epidemiológicas sobre a exposição da população trabalhadora aos diferentes Fatores de risco psicossociais e os respectivos resultados de saúde.


Há necessidade de um olhar diferenciado dos gestores dos serviços de saúde para os profissionais de saúde no sentido de propiciar, na medida do possível, um ambiente acolhedor de trabalho. O médico, assim como toda a equipe, precisa ter um quarto adequado de repouso, equipamentos com boa manutenção, segurança, boa alimentação, respeito do gestor e dos pacientes. Do contrário, teremos médicos doentes e população não amplamente atendida.


Na vida agitada e cansativa de plantões e a grande responsabilidade de atendimento de pacientes, aliada à infraestrutura deficiente, faz com que o médico tenha propensão a ficar doente. O ritmo acelerado desequilibra em todos os sentidos. Alguns médicos não se importam com assuntos não relacionados à área científica, selecionam livros somente de estudos da área de atuação, viajam para eventos da especialidade etc.


Colega médico, respire fundo ao amanhecer e em diversas horas do dia. Desacelera! Planeja uma viagem prazerosa, vá ao cinema, dance, alimente-se bem, sorria, vá dormir! Coloque diversão no dia-a-dia.


O tempo passa muito depressa, o momento é agora. Gestores olhem por seus médicos. Médico, cuide de si!


REFERÊNCIAS


BRASIL. Ministério da Saúde. Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil. Doenças relacionadas ao trabalho: manual de procedimentos para os serviços de saúde / Ministério da Saúde do Brasil, Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil; organizado por Elizabeth Costa Dias; colaboradores Idelberto Muniz Almeida et al. – Brasília. 2001.

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. A saúde dos médicos do Brasil. BARBOSA, Genário Alves. Coord. Brasília. 2007. 220p.

Cox, T., Griffiths, A., & Rial-Gonzalez, E. Research on work related stress. Luxembourg: Office for Official Publications of the European Communities. 2000.

NASCIMENTO SOBRINHO, Carlito Lopes et al. Condições de trabalho e saúde dos médicos em Salvador, Brasil. Rev. Assoc. Med. Bras. [online]. 2006, vol.52, n.2, pp.97-102. ISSN 0104-4230. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302006000200019.

THOMAÉ, Maria Noelia Vanessa; AYALA, Elio Adrian; SPHAN, Marina Soledad; STORTTI, Mercedes Alejandra. Etiologia y prevencion del sindrome de burnout em los trabajadores de la salud. Revista de Posgrado de la VIa Cátedra de Medicina, n° 153 – Enero 2006.

Virtanen, M., Ferrie, J.E., Gimeno, D., Vahtera, J., Elovainio, M., Singh-Manoux, A., Marmot, M.G., & Kivimäki, M. (2009). Long working hours and sleep disturbances: The Whitehall II prospective cohort study. Sleep, 32(6), 737-45.

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