MPOX ("monkeypox")
- helenabrigido
- 29 de jan. de 2024
- 6 min de leitura
Helena Brígido, médica infectologista.
(Atualizado em 29 janeiro 2024)
O que é a doença Mpox?
É uma doença zoonótica, isto é, pode ter animais como hospedeiros, além de humanos. Também pode ser transmitida de pessoa a pessoa. É uma doença causada pelo vírus monkeypox, da família Poxviridae, gênero Orthopoxvirus. O reservatório natural do vírus permanece desconhecido, no entanto, roedores africanos e primatas não humanos (como macacos) podem abrigar o vírus e infectar pessoas.
Qual a origem da Mpox?
- A doença foi identificada pela primeira vez em 1958 em macacos de laboratório; os primeiros casos registrados em seres humanos ocorreram em 1970 na República do Congo; em 2003, ocorreu um surto nos Estados Unidos, com origem em uma loja de animais com venda de roedores importados de Gana; em 2022, ocorreu um surto no Reino Unido com transmissão comunitária pela primeira vez fora da África.
- A Mpox pode acometer vários animais, inclusive esquilos. Não é varíola "dos macacos". O nome foi divulgado erroneamente diante da primeira identificação, em 1958, em pesquisa em colônias de macacos.
A varíola é a mesma doença mpox?
Varíola e Mpox são doenças diferentes.
A varíola foi erradicada em 1980, doença causada pelo vírus smallpox com provável origem na Índia, com descrição na Ásia e África e foi responsável por inúmeras mortes em Atenas (430 a.C). Surgiu novamente nos séculos II e III. Também ocorreu na Europa. Foram encontrados vestígios do vírus variólico em 2016, em uma múmia infantil (datada de 1654) na cripta de uma igreja na Lituânia. A doença foi uma das principais responsáveis pela dizimação da população nativa da América após a importação da Europa.
No Brasil, a varíola foi detectada pela primeira vez em Itaparica (1563) com muitos óbitos, principalmente em indígenas. O último caso natural da doença foi diagnosticado em outubro de 1977, ocasionando a certificação de erradicação da doença em 1980, pela Organização Mundial da Saúde. Por isso, não houve mais a aplicação da vacina.
A Organização Mundial de Saúde adotou o nome mpox substituindo a denominação de monkeypox, para atenuar a confusão causada um surto global não relacionado à enfermidade em macacos.
A doença mpox ocorre desde 1970 em humanos com descrição em 11 países africanos. Em maio de 2022, vários casos foram identificados em vários países não endêmicos, não sendo típico dos padrões anteriores de Mpox.
O primeiro no Brasil foi observado em 06 de agosto de 2022, na cidade de São Paulo, com confirmação laboratorial no dia 09.08.2022.
As pessoas com Mpox transmitem o vírus enquanto apresentam sintomas (entre duas e quatro semanas). A transmissão ocorre por contato físico próximo com alguém que tenha sintomas via pele, trato respiratório ou nas membranas mucosas (olhos, nariz, boca). A erupção cutânea, fluidos corporais (pus ou sangue de lesões na pele) e crostas são intensamente infecciosos.
A transmissão de animal para humano pode ocorrer por mordida ou arranhão, preparação de carne de caça, contato direto com fluidos corporais ou material da lesão ou contato indireto com material da lesão. Roupas, lençóis, toalhas ou objetos/utensílios contaminados com o vírus também podem ser veículo de transmissão.
Acredita-se que a transmissão interhumana ocorra principalmente por grandes gotículas respiratórias que, geralmente, não alcançam mais do que alguns metros; é necessário, portanto, um contato próximo e prolongado. O vírus pode ser transmitido pela saliva. Pode ocorrer transmissão placentária, portanto, o acompanhamento de grávidas com a doença deve ser rigoroso.
BRASIL.BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO ESPECIAL MONKEYPOX. Boletim Semanal | Centro de Operações de Emergências (COE). Versão 10 setembro de 2022.
Qual o período de incubação (entre adquirir o vírus e ter os sinais e sintomas) da Mpox?
O quadro clínico inicia após 07 a 14 dias do contato, podendo variar de 05 a 21 dias.
O quadro clínico da Mpox inclui febre, dor de cabeça intensa, dores musculares, dor nas costas, astenia, linfonodos palpáveis e erupções cutâneas (máculas, pápulas, vesículas, pústulas) que iniciam após um a três dias do início da febre.
Pode ocorrer poucas ou múltiplas lesões planas ou levemente elevadas, cheias de líquido claro ou amarelado, e podem formar crostas. As erupções tendem a se concentrarem na face, olhos, palmas das mãos e solas dos pés, orofaringe, genitais. A maior frequência das lesões ocorre na região genital (n = 2.952), tronco (n = 2.136), membros superiores (n = 2.068), face (n = 1.649), segundo Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde (set 2022).
Os sintomas geralmente duram entre duas a quatro semanas e desaparecem espontaneamente.

Monkeypox: Fotos de pacientes do Brasil - acervo do médico infectologista Álvaro Furtado Costa.

Fonte: Casos em Belém (Pará) janeiro 2024.

Fonte: Caso atendido em Belém (Pará) janeiro 2024
DEFINIÇÃO DE CASO
CASO SUSPEITO: Indivíduo de qualquer idade que apresente início súbito de lesão em mucosas e/ou erupção cutânea aguda sugestiva de mpox, única ou múltipla, em qualquer parte do corpo (incluindo região genital/perianal, oral) E/OU proctite (por exemplo, dor anorretal, sangramento), E/OU edema peniano, podendo estar associada a outros sinais e sintomas.
CASO PROVÁVEL: Caso que atende à definição de caso suspeito, que apresenta um ou mais dos seguintes critérios (com investigação laboratorial de mpox não realizada ou inconclusiva e cujo diagnóstico de mpox não pode ser descartado apenas pela confirmação clínico-laboratorial de outro diagnóstico): a) Exposição próxima e prolongada, sem proteção respiratória, OU contato físico direto, incluindo contato sexual, com parcerias múltiplas E/OU desconhecidas nos 21 dias anteriores ao início dos sinais e sintomas; E/OU b) Exposição próxima e prolongada, sem proteção respiratória, OU histórico de contato íntimo, incluindo sexual, com caso provável ou confirmado de mpox nos 21 dias anteriores ao início dos sinais e sintomas; E/OU c) Contato com materiais contaminados, como roupas de cama e banho ou utensílios de uso comum, pertencentes a caso provável ou confirmado de mpox nos 21 dias anteriores ao início dos sinais e sintomas; E/OU d) Trabalhadores de saúde sem uso adequado de equipamentos de proteção individual (EPI) com história de contato com caso provável ou confirmado de mpox nos 21 dias anteriores ao início dos sinais e sintomas
CASO CONFIRMADO: Caso suspeito com resultado laboratorial "Positivo/Detectável" para mpox vírus (MPXV) por diagnóstico molecular (PCR em Tempo Real e/ou Sequenciamento).
CASO DESCARTADO: Caso suspeito com resultado laboratorial "Negativo/Não Detectável" para mpox vírus (MPXV) por diagnóstico molecular (PCR em Tempo Real e/ou Sequenciamento) OU sem resultado laboratorial para MPXV E realizado diagnóstico complementar que descarta mpox como a principal hipótese de diagnóstico.
Os sintomas da Mpox geralmente involuem sem necessidade de tratamento. Quando indicado, o tecovirimat, aprovado para o tratamento em janeiro de 2022, é utilizado em adultos e crianças com peso de pelo menos 13 kg. O mecanismo de ação é de interferir com uma proteína denominada VP37, que se encontra na superfície do ortopoxvírus impedindo, assim, a reprodução. Estudos demonstraram que 80 e 100 % dos animais sobreviveram quando o tratamento foi iniciado 4 ou 5 dias após a infecção.
Como dar diagnóstico de Mpox?
É necessário uma avaliação clínica e epidemiológica. O diagnóstico laboratorial é realizado com testes de detecção de ortopoxvirus em amostras de lesões.
Diagnóstico diferencial: com outras lesões ulceradas, principalmente varicela, condiloma acuminado, sífilis, herpes simples, herpes zoster.
Como é a evolução dos casos?
Na maioria dos casos, o quadro clínico de Mpox desaparece em algumas semanas. Em alguns indivíduos, podem ocorrer complicações e óbito em cerca de 3 a 6% dos casos em países endêmicos.
Recém-nascidos, crianças e pessoas com deficiências imunológicas podem estar em risco de sintomas mais graves e morte por Mpox.
As complicações de casos graves da doença incluem infecções bacterianas nas lesões de pele, pneumonia, infecções oculares que podem levar à perda de visão.
A prevenção pode ser feita reduzindo o contato com pessoas suspeitas ou confirmadas de Mpox.
A pessoa infectada necessita de isolamento, cobrir as lesões de pele. É necessário usar máscaras na proximidade de pessoas infectadas, especialmente se estiverem tossindo ou com lesões na boca.
Deve-se limpar regularmente as mãos com água e sabão ou álcool gel, especialmente após o contato com a pessoa infectada, roupas, lençóis, toalhas e outros itens ou superfícies em que tocaram ou contato com erupção cutânea ou secreções respiratórias.
Profissionais de saúde necessitam utilizar EPI para atendimentos e observar a higienização das mãos antes e após a avaliação, tendo o cuidado na retirada dos equipamentos de proteção e desprezá-los em local apropriado.
Sim. As vacinas Jynneos ou a vacina Imvanex.
A vacinação está disponibilizada para pessoas mais vulneráveis: Homens que fazem Sexo com Homens (HSH), Pessoas Vivendo com HIV (PVHIV).
Pessoas vacinadas contra a varíola (vírus smallpox) estão protegidas contra a Mpox?
As pessoas que foram vacinadas contra a varíola (doença diferente da Mpox, causada pelo vírus smallpox) provavelmente terão alguma proteção contra a infecção. A aplicação cessou após decretada a erradicação da doença humana em 1980. Pessoas vacinadas têm a marca da aplicação no braço esquerdo.
É importante não estigmatizar pessoas de maior risco ou qualquer indivíduo com quadro clínico de Mpox, pois prejudica a busca de diagnóstico e tratamento da doença.
É Doença de Notificação compulsória.
Helena Brígido, médica infectologista.
Bibliografia
BRASIL.BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO ESPECIAL MONKEYPOX. Boletim Semanal | Centro de Operações de Emergências (COE). Versão 10 setembro de 2022.
www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/variola-dos-macacos/boletim-epidemiologico-de-monkeypox-no-12-coe#:~:text=No%20Brasil%2C%20até%20a%20semana,)%20(n%3D%2022.522).
CDC. Centers for Disease Control and Prevention. Content source: Centers for Disease Control and Prevention, National Center for Emerging and Zoonotic Infectious Diseases (NCEZID), Division of High-Consequence Pathogens and Pathology (DHCPP), Page last reviewed: May 20, 2022. Available: https://www.cdc.gov/poxvirus/monkeypox/index.html
CDC. Centers for Disease Control and Prevention. Content source: Centers for Disease Control and Prevention, National Center for Emerging and Zoonotic Infectious Diseases (NCEZID), Division of High-Consequence Pathogens and Pathology (DHCPP), Page last reviewed: May 20, 2022. Available: https://www.cdc.gov/poxvirus/monkeypox/outbreak/current.html
European Medicines Agency. Science Medicines Health. Tecovirimat. Available: ema.europa.eu/medicines/human/EPAR/Tecovirimat-SIGA
Farahat RA et al. Human monkeypox Disease (MPX). Infez Med 2022 Sep; 30(3) Epub Ahead June 21.
Lebwohl, Mark G.; Heymann, Warren R.; Berth-Jones, John; Coulson, Ian (2013). Treatment of Skin Disease E-Book: Comprehensive Therapeutic Strategies (em inglês). [S.l.]: Elsevier Health Sciences. p. 89. ISBN 978-0-7020-5236-1.
WHO. World Health Organizations. Monkeypox. 20 May 2022. Available: https://www.who.int/philippines/news/q-a-detail/monkeypox







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