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Vivemos na Caverna de Platão - Por opção?

  • Helena Brígido
  • 26 de fev. de 2018
  • 3 min de leitura

HELENA BRÍGIDO. Docente do Curso de Medicina da Universidade Federal do Pará (UFPA) e do Centro Universitário do Pará (CESUPA).


Platão escreveu no livro "República" há quase 2500 anos, um relato do Mundo das Ideias em que imaginou uma caverna com três homens que nasceram e cresceram dentro e no fundo do local e viviam acorrentadas e apenas com uma fresta de luz. As pessoas não podiam se mover, forçadas a olhar somente para a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras do que se passa no mundo exterior pela única abertura local. Certo dia, um dos homens consegue se libertar das correntes e sai da caverna. Perde os sentidos com a luz. Após, percebe que o que viam refletidos na sombra não era verdade. O homem fica vislumbrado com as cores e imagens diferentes do que havia visto. Descobre um universo gigantesco que é a verdade e retorna para o interior da caverna sendo ignorado sobre o lado do mundo exterior. Seus companheiros o matam considerando-o como louco.


Sob influência de Sócrates, Platão faz uma analogia e descreve a busca da essência das coisas para além do mundo sensível. É utilizada uma linguagem para demonstração do quanto as pessoas estavam presas a crendices. O personagem da caverna, ao libertar-se, correria o risco de ser morto por expressar seu pensamento e querer mostrar um mundo totalmente diferente. Em nossa realidade, é como se o ser humano acreditasse, desde que nasceu, que o mundo é de determinado modo, então surge alguém e diz que quase tudo aquilo é falso, é parcial e tenta mostrar novos conceitos, totalmente diferentes. É uma metáfora da condição humana perante o mundo, sobre a importância do conhecimento filosófico e a educação como superação da ignorância.

O livro relata um diálogo de Sócrates com Glauco e Adimanto, irmãos mais novos de Platão, com ênfase ao processo de conhecimento, da visão de mundo e a do filósofo na eterna busca da verdade.


Platão divide o mundo em duas realidades:

- a sensível (eikasia e pístis), que se percebe pelos sentidos, é a imperfeição.

- a inteligível (o mundo das ideias - diánoia e nóesis), o encontro de toda a verdade possível para o homem.


Retrata a ideia de que o mundo da verdade não é a caverna em que se vive. Esse lugar não é a realidade absoluta; é uma ilusão da verdade. As pessoas estão sem enxergar ou não querem o entendimento, libertar-se das algemas. Não quere o confronto, enfrentar a libertação na luz. E ao longo do tempo, a descrição nunca deixou de acompanhar o ser humano. É sempre atual.

O cartunista brasileiro Maurício de Souza retratou o livro de Platão com a obra “A Sombra da Vida” fotografada e colocada em vídeo. Vale a pena assistir: https://www.youtube.com/watch?v=XoU4YAhJzLY.


A indústria cinematográfica também destacou o tema do tipo de realidade em que se vive. O filme “Matrix” (1999) mostra máquinas que controlam seres humanos ilustrando a imersão do homem moderno na teia tecnológica. A produção relata a vida de Neo, adormecido entre milhões de seres humanos, conectado à máquina Matrix que produz programas de realidade virtual simulando a humanidade do século XX. De uma cidade de seres humanos livres, Morpheus, o líder, vislumbra Neo como escolhido para combater as máquinas. Neo é desconectado e encontra-se fraco e nu. Morpheus revela a verdade sobre a Matrix, sobre o mundo real e sobre o destino da humanidade. Neo quer se opor as máquinas, libertando mentes humanas.

Platão e o filme Matrix mostram o desafio em sair do mundo do imaginário em busca da verdade. O mundo em que se vive não difere do filósofo e do cineasta. A vida sensível está relacionada ao imaginário, aos programas de televisão, jogos eletrônicos, redes sociais etc retirando as pessoas do meio real na imposição do conceito de perfeição. As atrações ativam o consumismo exagerado, a necessidade de ter dinheiro para satisfazer o belo.


As pessoas estão acorrentadas acreditando serem imagens do mundo real levando à alienação. A evolução da tecnologia, ainda que muito importante, como automóveis, informática, utensílios diversos etc, margina o homem da realidade e o afasta do convívio pessoal com o mau uso dos meios de comunicação (televisão, celular, redes sociais que inclui o WhatsApp) levando-o à violência, o uso de drogas, à corrupção, ao desrespeito aos direitos humanos.


É preciso resgatar, como mundo ideal, o valor da família, dos amigos, da honestidade, da justiça e do amor.


BIBLIOGRAFIA

PLATÃO. A República. O Mito da Caverna. Livro VII. 6° ed. Ed. Atena, 1956.


SOUZA, Maurício. Mito da Caverna - versão - Platão por Maurício de Souza. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XoU4YAhJzLY. Acesso em 25 fev 2018.


WACHOWSKI, Lana. MATRIX. EUA, 1999.

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